Manifesto da Cova de Cipriano Feiticeiro

Táta Nganga Kamuxinzela

O feiticeiro não nasce. Faz-se. E é para fazê-lo que existe a Cova de Cipriano Feiticeiro.

O nosso nome não é ornamento. Na memória ibérica houve uma escola de feitiçaria que se chamava caverna: a Cueva de Salamanca, um antro subterrâneo aberto sob a igreja de San Cebrián, isto é, de São Cipriano, onde, diz a lenda, o próprio Diabo instruía sete discípulos por sete anos. Ali não se comprava um poder: aprendia-se. A nigromancia ibérica formava-se, ao pé da letra, debaixo de Cipriano. É essa herança que reivindicamos, não uma metáfora erudita, mas a confissão de uma filiação. A nossa Cova é a caverna-escola sob o signo de Cipriano, e o seu mestre invisível é o mesmo Cipriano que, de mago pagão a santo dos feiticeiros, e deste a Exu, preside na Quimbanda à arte de fazer do morto um operário.

A Cova é, a um só tempo, templo e escola: um Templo de Quimbanda e uma casa de formação, dedicada a uma única missão: formar o operador ritual, o táta-nganga. Aqui não se vende um produto nem se entrega um diploma. Forma-se uma pessoa.

Porque a autoridade do feiticeiro não vem da posse de um assentamento, mas de um regime. O operador é fabricado por um percurso: a disciplina do corpo, o resguardo, o desenvolvimento da mediação, o fundamento herdado da linhagem, o segredo guardado, a prova atravessada e, enfim, o reconhecimento da comunidade. Sem esse percurso, há um curioso cercado de objetos. Com ele, há um sacerdote.

Mas a Cova ensina mais do que a arte hierática: ensina a cultura. Cipriano Feiticeiro, nosso patrono, foi antes de tudo um estudante, um homem de saber que fez da erudição o solo da sua magia. Seguimos o seu exemplo. Aqui se aprende a riscar, cantar, assentar, sacrificar e comandar; mas também a história, a filosofia e as raízes profundas da tradição. Um feiticeiro que domina a técnica e ignora a cultura é apenas metade de um operador. A Quimbanda não é superstição a repetir: é uma arte e uma ciência sagrada a compreender.

Eis o que professamos: que feitiçaria e conhecimento são uma só coisa; que a mão que assenta há de ser guiada pela cabeça que estuda; que formar um táta-nganga é formar, a um só tempo, um operador e um erudito. Foi assim que Cipriano se fez, pelo estudo antes do poder, pela erudição antes do pacto, e é assim que se faz, entre nós, quem carrega o seu nome.

Esta é a Cova de Cipriano Feiticeiro. Templo para quem cultua. Escola para quem deseja, de fato, tornar-se.