Revista Nganga
A Revista da Feitiçaria Brasileira
Estudos de Quimbanda, ciências da religião, antropologia e sociologia do ritual, esoterismo ocidental
Editorial
Por Táta Nganga Kamuxinzela
A Nganga é uma revista sobre a feitiçaria tradicional brasileira, a Quimbanda, e sobre a forma de vida que lhe é inseparável, a vida de goécia. Não nasceu na universidade, mas numa casa: a família de Quimbanda Cova de Cipriano Feiticeiro. Registramos isso de saída porque é a nossa condição de trabalho, e não um dado biográfico. Quem escreve aqui é iniciado: assenta, joga, trabalha, e é também quem estuda.
Dessa dupla condição vem o que a revista tem de próprio. A Quimbanda destas páginas é, a um só tempo, a que praticamos e a que analisamos: examinada por dentro, como a tradição se compreende e se transmite, e por fora, como objeto de conhecimento, um regime de eficácia ritual entre outros. Não pedimos ao leitor que escolha entre o iniciado e o analista; recusamos a escolha. Devoção e análise não se anulam, e é da tensão entre as duas que a revista vive.
Lemos a Quimbanda como uma goécia brasileira: um sistema de mediação com os mortos e com as potências ctônicas, cujo tutelar é o Exu-Diabo. Convém ser exato sobre o que isso quer dizer. A Quimbanda não descende da magia greco-romana nem se explica por ela; se a lemos ao lado da goēteía antiga, é por homologia (porque estruturas semelhantes reaparecem em tradições que mal se conheceram), jamais por filiação. O nosso norte é comparar sem inventar linhagens: separar o que apenas se parece do que de fato se transmitiu.
E o que de fato se transmitiu tem nome banto. Em quicongo, nganga é o especialista ritual por excelência, o sacerdote que opera os minkisi, cura, divina e trata com os mortos da linhagem; o seu cognato quimbundo, kimbanda, é o operador de que a própria Quimbanda toma o nome. Mas herdar um nome não é repetir uma religião. No Brasil, o núcleo banto permaneceu e, ao mesmo tempo, refez-se: sob a pressão do cativeiro, do catolicismo e da demonologia cristã, o indivíduo kimbanda tornou-se o culto ou a tradição da Quimbanda brasileira, uma goécia nativa, com o seu Exu-Diabo, os seus assentamentos, fundamentos e tronqueiras. O Exu-Diabo é uma construção da história afro-diaspórica; é também, para quem o cultua, inteiramente real. As duas coisas são verdadeiras, e não abrimos mão de nenhuma.
É por isso que adotamos o nome nganga: para honrar o especialista ritual banto, homólogo funcional, não antepassado, do góēs greco-mediterrâneo, e para marcar o lugar de onde falamos. A revista reúne ensaios sobre a doutrina, a história e a práxis da Quimbanda, no eixo que a Cova de Cipriano Feiticeiro vem desenvolvendo. Escrevemos para o leitor culto, mas dirigimo-nos ao especialista: nem folclore, nem manual, nem apologia: uma feitiçaria pensada com o rigor que ela sempre teve, e que poucas vezes lhe reconheceram.
Táta Kamuxinzela Escola Cova de Cipriano Feiticeiro
A edição que vem
Nº 15 Em breve
Edição Especial: Regimes de Eficácia
Sob o mesmo norte que orienta todos os ensaios, os Regimes de Eficácia no marco Mágos-Mageía, a próxima edição da Revista Nganga, já em preparação, volta-se ao ponto mais alto dessa teologia: a divinização da alma. Mostraremos que também a deificação é um regime de eficácia, não uma ascensão metafísica que a alma alcança por si, mas um ato ritual que o sacerdote executa: do páredros subjugado da magia antiga à outorga do Exu tutelar, da alma instalada como potência ctônica ao morto que o rito do àsèsè faz ancestral e que o culto a Exu na Quimbanda coroa. Uma edição sobre o espírito tutelar e a teurgia própria da Quimbanda, no rigor que a revista vem consolidando: o aparato a serviço da tradição, e não o contrário. Em breve, no site da Escola Cova de Cipriano Feiticeiro.
Ensaios novos
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Nº 15
Em breve
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dezembro de 2024
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abril de 2023
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fevereiro de 2022
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