O VERDADEIRO MAGO: Roteiro para vídeo no YouTube

Autor: Táta Nganga Kamuxinzela

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No meu último vídeo eu disse que o verdadeiro representante do «mago» são os operadores rituais dos cultos tradicionais – os bàbáláwos, os tátas, os pais e mães-de-santo, os bàbálòrìsà – e não o estereótipo moderno do mago solitário, de gabinete, do ocultismo europeu. Em resposta, alguém escreveu: «o feiticeiro só quer facilidade; um mago é superior». Pois é exatamente esse preconceito que eu quero desmontar hoje – e vou mostrar que ele tem 2.500 anos, uma origem rastreável, e uma refutação que a própria ciência da magia já deu.

I . De onde vem o preconceito

A palavra «mago» não nasceu para o ocultista de gabinete, nasceu para o sacerdote. Mágos era o sacerdote persa, o especialista religioso. Como resume o helenista Fritz Graf, «o mago é um sacerdote ou, em todo caso, um especialista em religião», responsável, segundo Heródoto, «pelos sacrifícios reais, pelos ritos fúnebres e pela divinação». Platão, no Primeiro Alcibíades, define «a ciência dos magos» como «o culto dos deuses»; e Graf conclui: «os magos eram sacerdotes persas particularmente piedosos». Guardem isto: na origem, o mago é o sacerdote de um culto tradicional.

Então a palavra virou arma. Já no Séc. V antes da nossa era, os gregos inverteram o termo. Passaram a usar «mago» para o especialista ritual estrangeiro e marginal, aquele que operava fora da religião oficial da cidade, misturando-o ao sacerdote-mendigo e ao vidente de rua. Em Sófocles, no Édipo Rei, Édipo insulta o profeta Tirésias chamando-o «este mago tramador de intrigas, este mendigo astuto». O mago torna-se, nas palavras de Graf, um dos «homens à margem da sociedade, ridicularizados por uns, secretamente temidos por outros».

E havia um polo ainda mais baixo: o goês. A palavra deriva de goos, o lamento fúnebre. Como explica Graf, «o goês está ligado aos ritos fúnebres, ao êxtase, à divinação e à cura», e ao poder de chamar de volta os mortos das suas sepulturas. Ou seja: desde a origem, «magia» nunca foi uma coisa real, foi um rótulo, uma categoria de alteridade, colada ao operador ritual que trata com os mortos e que opera fora do culto dominante. É exatamente a posição em que o cristianismo colocou o sacerdote afro-brasileiro.

Depois veio a divisão «alto e baixo». Da Antiguidade tardia ao Renascimento, o rótulo se partiu em dois. De um lado, a magia natural e celeste do filósofo-magus (Ficino, Pico della Mirandola, Agrippa), letrada e respeitável. De outro, a goécia, a feitiçaria vulgar e demoníaca. Nasce ali o «mago douto», que se separa do feiticeiro justamente para se dizer superior a ele.

E, por fim, as duas camadas modernas. A primeira: o ocultismo dos Sécs. XIX e XX (de Éliphas Lévi, a Golden Dawn e Crowley) reconstrói o magus como uma elite intelectual e espiritual, o adepto solitário no seu gabinete, cercado de livros. A segunda, e mais venenosa: a antropologia vitoriana de Frazer e Tylor definiu magia como coerção mecânica, o atalho egoísta de quem «força» os deuses, em oposição à religião, entendida como súplica humilde. Reparem bem: a frase «o feiticeiro só quer facilidade» é, palavra por palavra, a definição frazeriana de magia. Não é uma observação sobre a realidade; é um preconceito teórico de 1890. E sobre tudo isso ainda incide o desprezo colonial: a própria palavra «feitiço», «feitiçaria», foi cunhada pelos mercadores portugueses para rebaixar os objetos sagrados da África Ocidental: o feitiço que virou fetish.

I I . A resposta

Primeiro: o «mago superior» é uma caricatura, e quem a repete fala como um inquisidor medieval. Este é o ponto decisivo, e é de David Frankfurter, o editor do Guide to the Study of Ancient Magic, publicado pela Brill. A dicotomia exata que me mandaram no comentário é, palavra por palavra, o esqueleto do estereótipo antigo. Ouçam Frankfurter:

«Supõe-se que os magos forçam os daimones e os deuses ctônicos a agir, ao passo que os sacerdotes imploram e rezam; magos e bruxas oferecem os seus sacrifícios horríveis para satisfazer desejos egoístas, e não para proteger a aldeia da peste. Estes são os elementos da caricatura; mas até que ponto são eles generalizáveis a certos especialistas rituais históricos? Provavelmente em nada – e, se não mantivermos essas questões separadas, acabamos por replicar todas as afirmações dos heresiógrafos medievais.»

Frankfurter insiste que o que se deve estudar são «estereótipos e representações coletivas, não especialistas rituais reais». Traduzindo para nós: quando alguém diz «o feiticeiro só quer facilidade, o mago é superior», essa pessoa não está descrevendo a realidade, está recitando, sem saber, a caricatura que os heresiógrafos medievais inventaram para queimar gente.

Segundo: o mago é o sacerdote. Se a palavra «mago» nasceu significando o sacerdote-operador de um culto tradicional, então o bàbáláwo, o táta, o pai e a mãe-de-santo, o bàbálòrìsà são os magos históricos, os herdeiros diretos do especialista ritual antigo, do escriba-sacerdote dos Papiros Mágicos Gregos até o terreiro. O «mago solitário de gabinete» é a personagem tardia, moderna, ideológica. O operador tradicional é o mago real. É esta a tese do meu livro Mágos: dos Papiros Mágicos Gregos à Quimbanda.

Terceiro: quem realmente domina a técnica? A eficácia de um rito não está na «superioridade» intelectual de ninguém, está na articulação regulada entre o operador, os meios materiais, a sequência e a finalidade, sustentada por fundamento, iniciação e linhagem. É o que eu chamo de regime de eficácia, no livro Mageía. E é aqui que o preconceito se inverte: o verdadeiro atalho é o do «mago» que compra um grimório, monta um altar no quarto e se declara adepto, sem assentamento, sem iniciação, sem anos de obrigação, sem comunidade. Quem recusa a facilidade é o sacerdote tradicional, cuja arte custa sangue, tempo, obrigação e transmissão. O «mago de gabinete» é que quer facilidade; o feiticeiro tradicional é o que paga o preço.

Para fechar. «O feiticeiro só quer facilidade, o mago é superior» é o eco requentado de dois mil e quinhentos anos de difamação: de Édipo chamando o profeta de «mago mendigo», passando pela demonologia medieval, até o desprezo colonial pelo «feitiço» africano. A ciência da magia hoje já não compra essa hierarquia. Não existe «mago superior» e «feiticeiro inferior», existem especialistas rituais reais e existem caricaturas ideológicas. O verdadeiro mago é o sacerdote que opera. O «mago superior», solitário e de gabinete, é uma personagem de romance, que nunca sujou as mãos de dendê, de pemba e de sangue.

Bibliografia

Fontes antigas

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Estudos

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